Conhecer a China foi uma das grandes alegrias que eu tive na minha vida. É um daqueles sonhos distantes, quase que inimaginável para quem está do lado de cá do globo, sabe? Hoje, quando eu penso sobre esse “inimaginável”, entendo que a nossa idéia de distância tem muito menos relação com a geografia que com a cultura. Dizer que tudo é diferente é demais superficial, pra não dizer redundante.
Antes de continuar meu relato, queria deixar bem claro que a minha idéia, ao criar esse blog, era transmitir minhas impressões dos lugares visitados, mas agora preciso explicar que certas coisas são difíceis de serem descritas, o que justifica que tudo pode não ficar tão claro assim, embora eu tente.
Desembarquei na indecifrável Hong Kong, que muitos acreditam ser um Estado, outros um país, mas na verdade é uma região administrada pela República Popular da China, embora possua suas próprias leis e siga o regime capitalista (resultado do acordo entre o Reino Unido e a RPC).
Hong Kong é alegre, viva, economicamente ativa e altiva, com milhões de pessoas nas ruas, desfilando um estilo cheio de estilos, livre e colorido. Fiquei pensando se essa manifestação não seria uma resposta a toda repressão a qual foram submetidos no passado. Provavelmente sim. O interessante é que toda essa modernidade expressada nas luzes, roupas e cabelos inusitados se mistura a uma tradição forte que ficou ali, enraizada nas pessoas – principalmente na culinária e medicina - um conflito (ou seria uma harmonia?) entre passado e futuro.
Essa política de “um país, dois sistemas” fica ainda mais visível quando você pisa em solo continental. Quando cheguei a Shenzhen (é preciso de visto para ir à China Continental) eu vi que a mão inglesa não está apenas no trânsito de Hong Kong, ela “pesa” sobre a cultura e os costumes de lá, o que faz da ilha uma região muito mais civilizada (do nosso ponto de vista, claro) e organizada. Ainda mais contraditória e diferente de HK, lá não há nenhuma referência ao inglês e a dificuldade de comunicação é absurda. Mas quem pensa que isso é algum sinal de atraso, se engana. Só pra frisar, a reforma econômica que tornou a China uma potência mundial começou em Shenzhen, que hoje é pólo de alta tecnologia. Ainda assim o ritmo da cidade é diferente, confuso e o trânsito uma loucura. Pare num cruzamento e verá que pessoas se misturam a carros e meios de transporte alternativos, ignorando semáforos e sinalizações. Uma desorganização curiosa. A sensação que eu tinha era de estar a milhares de quilômetros de HK, quando na verdade estava a poucas milhas da fronteira.
Comer na China Continental é um verdadeiro desafio, já que é preciso indicar por meio de fotografia o prato escolhido no menu. Quando não erravam o pedido, o que é muito comum, eles simplesmente riam porque não sabem o que dizer. Eu achava engraçado ver as garçonetes correrem coradas da mesa, com aquele sorriso desconfiado, olhando por baixo quando não entendiam o que falávamos. Por falar nisso, chinês é um povo que ri de absolutamente tudo! Difícil é saber se eles estão de gozação ou simplesmente envergonhados. Acho que os dois.
Fiquei na China quase um mês, tempo suficiente pra entender (ou não?) a discrepância cultural entre Ocidente e Oriente, para perceber a sensibilidade de um povo trabalhador, que não esquece seus antepassados; um lugar onde antigos ensinamentos atravessam gerações e convivem passivamente com as invasões tecnológicas e costumes ocidentais. Fiquei com essa sensação de “divisão”, não só nos sistemas, mas na alma da China...
Pra mim uma lição de um povo que aprendeu a administrar a política e o status de potência com sabedoria para se situar entre dois pólos e manter viva suas tradições.