sábado, 20 de junho de 2009

CHINA: DOIS MUNDOS NUM SÓ





Conhecer a China foi uma das grandes alegrias que eu tive na minha vida. É um daqueles sonhos distantes, quase que inimaginável para quem está do lado de cá do globo, sabe? Hoje, quando eu penso sobre esse “inimaginável”, entendo que a nossa idéia de distância tem muito menos relação com a geografia que com a cultura. Dizer que tudo é diferente é demais superficial, pra não dizer redundante.
Antes de continuar meu relato, queria deixar bem claro que a minha idéia, ao criar esse blog, era transmitir minhas impressões dos lugares visitados, mas agora preciso explicar que certas coisas são difíceis de serem descritas, o que justifica que tudo pode não ficar tão claro assim, embora eu tente.
Desembarquei na indecifrável Hong Kong, que muitos acreditam ser um Estado, outros um país, mas na verdade é uma região administrada pela República Popular da China, embora possua suas próprias leis e siga o regime capitalista (resultado do acordo entre o Reino Unido e a RPC).
Hong Kong é alegre, viva, economicamente ativa e altiva, com milhões de pessoas nas ruas, desfilando um estilo cheio de estilos, livre e colorido. Fiquei pensando se essa manifestação não seria uma resposta a toda repressão a qual foram submetidos no passado. Provavelmente sim. O interessante é que toda essa modernidade expressada nas luzes, roupas e cabelos inusitados se mistura a uma tradição forte que ficou ali, enraizada nas pessoas – principalmente na culinária e medicina - um conflito (ou seria uma harmonia?) entre passado e futuro.
Essa política de “um país, dois sistemas” fica ainda mais visível quando você pisa em solo continental. Quando cheguei a Shenzhen (é preciso de visto para ir à China Continental) eu vi que a mão inglesa não está apenas no trânsito de Hong Kong, ela “pesa” sobre a cultura e os costumes de lá, o que faz da ilha uma região muito mais civilizada (do nosso ponto de vista, claro) e organizada. Ainda mais contraditória e diferente de HK, lá não há nenhuma referência ao inglês e a dificuldade de comunicação é absurda. Mas quem pensa que isso é algum sinal de atraso, se engana. Só pra frisar, a reforma econômica que tornou a China uma potência mundial começou em Shenzhen, que hoje é pólo de alta tecnologia. Ainda assim o ritmo da cidade é diferente, confuso e o trânsito uma loucura. Pare num cruzamento e verá que pessoas se misturam a carros e meios de transporte alternativos, ignorando semáforos e sinalizações. Uma desorganização curiosa. A sensação que eu tinha era de estar a milhares de quilômetros de HK, quando na verdade estava a poucas milhas da fronteira.
Comer na China Continental é um verdadeiro desafio, já que é preciso indicar por meio de fotografia o prato escolhido no menu. Quando não erravam o pedido, o que é muito comum, eles simplesmente riam porque não sabem o que dizer. Eu achava engraçado ver as garçonetes correrem coradas da mesa, com aquele sorriso desconfiado, olhando por baixo quando não entendiam o que falávamos. Por falar nisso, chinês é um povo que ri de absolutamente tudo! Difícil é saber se eles estão de gozação ou simplesmente envergonhados. Acho que os dois.
Fiquei na China quase um mês, tempo suficiente pra entender (ou não?) a discrepância cultural entre Ocidente e Oriente, para perceber a sensibilidade de um povo trabalhador, que não esquece seus antepassados; um lugar onde antigos ensinamentos atravessam gerações e convivem passivamente com as invasões tecnológicas e costumes ocidentais. Fiquei com essa sensação de “divisão”, não só nos sistemas, mas na alma da China...
Pra mim uma lição de um povo que aprendeu a administrar a política e o status de potência com sabedoria para se situar entre dois pólos e manter viva suas tradições.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

CHINA PRA QUE TE QUERO....

Você já imaginou ter que ficar sozinho do outro lado do mundo? Se você tiver planejado, tudo bem, mas no meu caso estava fora de todas as previsões. E como era de se esperar (melhor dizendo, não era) aconteceu comigo!
Hoje, escrevendo sobre isso parece engraçado - principalmente depois que eu percebi ter sido uma experiência única na minha vida - mas no momento em que me vi diante da situação foi meio apavorante. E quem não ficaria? Eu estava em Hong Kong, numa cidade onde o pouco inglês que se fala é algo meio complicado de se entender, acreditem!
Estava na China há mais ou menos duas semanas, quando o Paulo (meu companheiro de viagens) precisou ir ao Japão. Para quem não sabe, todo brasileiro que quer ir à Terra do Sol Nascente precisa de visto pra entrar no país; faz parte de uma política de reciprocidade e eles exigem uma série de documentos para a emissão. Bem...a primeira vez que fui a Tokyo, acreditem ou não, eu entrei no país sem visto, mas isso não vem ao caso já que dessa vez eu nem cheguei a embarcar.
Chinês é um povo gentil, alegre, mas extremamente metódico! O que deveria ser um problema da imigração japonesa tornou-se um problema da companhia aérea chinesa. Tudo bem que neste caso não era a dona da razão, mas tenho que ressaltar que, quando você viaja com passaporte brasileiro, todo funcionário em qualquer empresa aérea do mundo, sempre irá checar minuciosamente se você tem permissão para entrar nesse ou naquele país. Isso acontece sempre e não adianta você ter cem carimbos de um mesmo lugar; eles sempre irão checar com um certo tipo de critério, digamos....criterioso!
Depois de muito stress lá estava eu, com todas as minhas malas tendo que fazer o caminho de volta para o hotel. Não dizem que quem está na chuva é pra se molhar? Pois eu estava no meio de uma tempestade, sem muitas opções e muito, muito longe de casa. Peguei o trem até a estação e de lá um táxi até o hotel onde estava hospedada. Se tem uma coisa que eu aprendi nessas viagens a China e ao Japão foi a linguagem dos sinais. Além dessa técnica, tenha sempre em mãos o cartãozinho com o nome e endereço do hotel. Sempre funciona. Pelo menos funcionava até aquele dia, que acordei com o pé esquerdo; o que me fez parar num hotel da mesma rede, no mesmo bairro, mas definitivamente em outro endereço. Como explicar isso em chinês? Nem eu sei como consegui.
Mímica pra lá, “inglês chinês” pra cá, consegui voltar pro mesmo quarto de hotel onde estava antes. Quando não há muito que fazer diante de uma situação, a melhor saída é tentar tirar proveito dela, não é verdade? Pois foram seis dias maravilhosos onde conheci lugares maravilhosos em Hong Kong e de um jeito especial. Sozinha? Claro que não! Para quem estava lá há duas semanas e eu tinha tido tempo suficiente para fazer amigos e não posso deixar de registrar aqui o carinho e amizade da Ivy Chan, uma chinesinha de ouro de quem eu recebi uma atenção que só os grandes amigos ou pessoas de grandes almas são capazes de oferecer. Mas essa história não acaba por aqui.....ainda tenho muito o que escrever sobre a China e sobre os momentos em que me senti a mais descomprometida das criaturas andando sem rumo pelas superlotadas avenidas de Hong Kong, enquanto todos dormiam no Brasil. Detalhes que merecem uma atenção especial e que por isso eu irei deixar para próxima!